quarta-feira, 15 de julho de 2015

.sobre a morte



ontem ouvi o som do cortejo
e véus negros surgiram na rua
soluços pesados,
pessoas em transe - não acreditavam no fim

sentimentos inteiros destroçados,
obras - quaisquer que sejam - deixadas para trás
laços puxados violentamente de um lado;
atados no outro

E lá se vai o morto, 
na frente, em seu caixão liso,
preso entre flores as quais não pode mais sentir o cheiro
o rosto maquiado, mas frio, frio; indiferente, 

e os vivos se perguntam:
quando será a sua volta? 
onde ele está, agora/?
como é fechar os olhos para sempre?

assim que as silhuetas sumiram na esquina
fechei as janelas, entrei.
a casa vazia,
o silêncio que tanto me acalenta.
pensei em quem deveria ser aquele no caixão,
pensei naqueles que o velavam,
pensei em como deve ter passado seus anos
nas lembranças que, em memória, deixava

não, não refleti sobre como a vida é curta,
nem como tenho que aproveitá-la,
ou até mesmo sobre algum milagroso retorno.
achei-me como o morto: frio.

por ver uma das faces da morte? não. 
mas, pensei naqueles que vivem somente por ela,
em função dela,
que ela há de um dia chegar

talvez, já tenha vivido assim,
ou ainda vivo - não sei.
mas, apesar de misteriosa, a morte parece um estado de paz,
onde, lívidos, deixamos este mundo

sei que o corpo clama por vida,
não sei se há alguma missão a cumprir,
mas, quando a hora chegar 
irei ciente que é apenas o fim do meu ciclo


e, depois, sobre as flores, saberei se há algo de mágico nisso tudo
- ou não.



4 comentários:

  1. No contato com a morte, também, tanto quanto em quem vai indo, pensamos que ela para nós vem vindo.
    GK

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  2. Lindo. Também sinto a morte como estado de paz, embora eu não saiba muito bem o que seja paz.

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    1. Obrigada, muito há para se descobrir ainda :)

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Nunca tive cara de nova, muito menos de mais velha, sempre um meio a meio... Ou uma normalidade insossa. Minhas palavras nunca ...